O senador concedeu à reportagem da Central de Diários do Interior e Associação dos Diários do Interior do Brasil (CDI/ADI-BR) uma entrevista exclusiva
Ele nasceu em Belo Horizonte, no início da agitada década de 1960. Sempre um recordista nas urnas, teve quatro mandatos como deputado federal por Minas Gerais e por duas vezes foi governador do Estado que agora representa no Senado. Entre 2001 e 2002, exerceu a função de presidente da Câmara dos Deputados. Filiado inicialmente ao PMDB, em 1989 uniu-se aos políticos que fundaram o PSDB, entre eles, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e Franco Montoro. O ex-presidente Fernando Henrique é o mais entusiasmado defensor de sua candidatura à Presidência da República nas Eleições 2014. E é esse o tema que abre a entrevista exclusiva que o senador Aécio Neves concedeu à reportagem da Central de Diários do Interior e Associação dos Diários do Interior do Brasil (CDI/ADI-BR): “O PSDB tem uma responsabilidade enorme para com o país”.
CDI/ADI-BR - Várias lideranças do PSDB apontam seu nome como candidato à Presidência do país, mas o senhor tem afirmado que ainda não é o momento. Por quê?
Aécio Neves - Na verdade, eu recebo esse lançamento, ou essa sugestão, do presidente Fernando Henrique, do presidente do partido, Sérgio Guerra, como homenagem. Ou, talvez, como um esforço de unificação das forças de oposição. Eu costumo dizer sempre que política é a arte de administrar o tempo. Uma decisão correta num tempo incorreto traz um resultado que não é o desejável. O PSDB tem uma responsabilidade enorme para com o país. A associação de equívoco do governo do PT, a associação de escândalo do campo ético do governo do PT, o crescimento pífio da economia do governo do PT demandam uma proposta alternativa, um projeto alternativo para o país. E o PSDB, como o maior partido dentre aqueles que fazem oposição ao governo, tem a responsabilidade de construir e apresentar ao país esse projeto.
CDI/ADI-BR - FHC fala que o PSDB precisa ouvir as ruas.
Aécio Neves - O PSDB tem que reciclar e renovar o seu discurso, tem que atualizá-lo. Até porque a agenda que está em curso no Brasil hoje foi a agenda constituída pelo PSDB há quase 20 anos. O PT não inovou nessa agenda, ele deu andamento há alguns dos programas anteriormente concebidos, mas não avançou nas grandes reformas e na própria reforma do Estado. Cabe ao PSDB apresentar ao Brasil a ousada agenda dos próximos 20 anos. Isso se faz ouvindo a sociedade.
CDI/ADI-BR - Qual é o momento então?
Aécio Neves - Tenho dito que, antes do anúncio de um candidato, antes da consolidação de um nome, nós temos que dizer ao país o que é que nós faríamos de diferente daqueles que estão no poder. O que o PSDB, por exemplo, faria em relação à saúde pública, caótica, hoje, no Brasil, já que o governo do PT vem diminuindo a sua participação nos esforços de financiamento do setor. Cada vez se gastam menos recursos federais na saúde pública do Brasil. Então, o PSDB tem que falar numa nova Federação, onde municípios e estados se fortaleçam, onde haja mais generosidade nas questões centrais como saúde, segurança pública. Para se ter uma ideia, 87% de tudo que se gasta nessa área vêm dos cofres municipais e estaduais. Temos que falar em eficiência na gestão pública. E parcerias com o setor privado, parcerias com a sociedade. O governo do PT não conseguiu superar nenhum dos grandes gargalos de infraestrutura, seja aeroportuária, portuária, ferroviária, seja nas nossas rodovias, cada vez em pior estado. A ineficiência tem sido uma das principais marcas do PT. Tenho dito internamente, aos nossos companheiros de partido, que é a hora do PSDB se reapresentar à sociedade, renovando seu discurso, falando dessas questões, falando da questão ambiental e falando, sobretudo, da questão ética, que é fundamental para que qualquer projeto de poder possa ir adiante.
CDI/ADI-BR - O que o senhor tem a falar das recentes notícias do envolvimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso Rosemary?
Aécio Neves - Em primeiro lugar nós todos assistimos, de alguma forma, perplexos, as notícias que se sucedem. Eu costumo dizer que nós da oposição temos tido dificuldade até de ter uma estratégia de reação de tantas denúncias, já que elas são tão sucessivas. A denúncia de hoje já não será a de amanhã, porque a de ontem já envelheceu. Então, o que é saudável no Brasil de hoje?! É que nós temos instituições democráticas sólidas. A Justiça vem funcionando, a Procuradoria Geral da República vem agindo com autonomia, com altivez e com muita coragem. E eu tenho convicção de que ela estará avaliando a sucessão dessas denúncias, as novas informações. Obviamente eventuais indícios para que possa abrir novas investigações. Cabe à oposição, não apenas apostar no ponto pior, melhor. Isso não é uma marca, jamais será uma marca do PSDB. O que nós queremos é apresentar uma nova agenda propositiva, que faz o Brasil crescer mais, a saúde melhorar, a educação permitir essa emancipação a qual me referi, as famílias viverem mais tranquilas em relação à questão da segurança pública e, confiando que as instituições democráticas estarão sólidas para punir, qualquer que seja aquele, que tenha atuado de forma indecorosa, que tenha utilizado de forma indevida recursos públicos.
CDI/ADI-BR - A presidente Dilma Rousseff é considerada autoritária. O senhor acredita que faltou diálogo com o Congresso?
Aécio Neves - Olha, eu não vejo apenas defeito no governo do PT. Certamente, eles tiveram alguns acertos e, talvez o principal deles foi ter mantido a política macroeconômica do governo do presidente Fernando Henrique e ampliado os programas sociais iniciados naquele governo. Mas, é claro, há o viés autoritário do governo do PT. Não existe um cidadão brasileiro que possa ser contra a diminuição da conta de luz. Ao contrário, nós do PSDB praticamos isso há muitos anos. Em Minas Gerais, por exemplo, Estado que eu governei por oito anos, metade das famílias não paga ICMS, que é o único imposto estadual sobre as contas de luz, porque são isentos. Nesses dez anos, enquanto o governo do PSDB de Minas, São Paulo, Paraná, dentre outros, dá esse subsídio, portanto, essa desoneração do tributo estadual, o PT cobrou mais de dez impostos federais, mais de dez tributos federais sobre a conta de luz. Nós queremos chegar ao objetivo proposto pelo governo e ir além. O governo fala 20% de redução da conta de luz. Nós achamos que é possível chegar a 25%. Basta retirar da tarifa o PIS e o Cofins. Eu, inclusive, tenho um projeto tramitando no Congresso Nacional que retira a incidência do PIS/Cofins, na verdade a exemplo do que faz os governos do PSDB com os tributos estaduais. É o que o PSDB defende e é o que o PSDB cobrará da presidente da República.
CDI/ADI-BR - Ela não tem dialogado com os estados e com o Parlamento?
Aécio Neves - Não. As medidas foram tomadas de forma absolutamente autoritária. Algumas delas afetando a sobrevivência de empresas, que geram dividendos para o Estado. Isso significa saúde melhor, educação melhor, segurança melhor e mais energia para a geração de novos empregos no futuro. Portanto, o que faltou foi diálogo, mas, mesmo assim, nós estamos apontando um caminho muito claro e objetivo. Para superar a meta estabelecida pelo governo basta que o próprio governo, que vem arrecadando cada vez mais, abra mão do PIS/Cofins.
CDI/ADI-BR - A Dilma virou as costas para os estados da oposição?
Aécio Neves - Não apenas da oposição. O que tem acontecido ao longo das últimas décadas, mas vem se agravando de forma muito clara na última década, é a fragilização dos municípios, dos estados, e a concentração cada vez maior de receitas nas mãos da União. Hoje, grande parte dos municípios brasileiros está quase que insolvente. Infelizmente, nós temos hoje um governo que despreza a Federação. E na base da proposta que será constituída pelo PSDB está exatamente isso: fortalecimento de municípios e estados, porque de forma descentralizada se administra melhor, com mais eficiência e com menos desvios.
CDI/ADI-BR - Qual o seu recado especialmente para os municípios do interior?
Aécio Neves - O Brasil não vai crescer da forma que precisa, distribuindo riqueza e justiça social, se não houver um olhar muito generoso e muito claro, em especial para os pequenos e médios municípios. É ali que as pessoas vivem. Quem dizia isso era Montoro, mas Ulysses (Guimarães) repetia. As pessoas não vivem na União, não vivem no estado; vivem nos municípios. E quando eu falo da refundação da Federação, falo de dotar os municípios de mais recursos, de melhores condições para que possam atender melhor às demandas de sua gente. Porque a população da cidade fiscaliza muito mais os gastos feitos pelo prefeito do que aquele feito pelo governador ou pelo presidente da República. Portanto, a matriz da nossa proposta é o fortalecimento dos municípios, para que eles possam desenvolver, ali mesmo, novas atividades econômicas, ter uma educação de qualidade, proporcionar um atendimento de saúde mais adequado, até para evitar o êxodo permanente para os grandes centros, onde, ilusoriamente, buscam melhores condições de vida e não encontram. Se eu pudesse resumir em uma frase apenas uma nova visão de país, diria que a gente tem que começar com um olhar generoso para as nossas cidades.
Esta entrevista exclusiva foi disponibilizada para publicação nos 120 diários que formam a rede CDI/ADI-BR e também nos 15 diários da Associação Paulista de Jornais (APJ). A soma desse esforço está representada na tiragem de mais de 1 milhão de exemplares/dia e potencial para atingir quase 6 milhões de leitores. A força do interior na integração editorial.





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